domingo, 23 de março de 2014

Minhas flores

Senti saudade de postar aqui! Espero que curtam esse poema de retorno. 
Com carinho,
Carla

Minhas flores morreram,
e lamentando
delas me despedi.
Como se não pudesse deixar partir
algo tão puro
de outra maneira.
Lamentei.
E deixei que elas voltassem à terra mesquinha.
Minhas flores morreram
sem saber que eram minhas.

-Carla Medeiros

terça-feira, 9 de abril de 2013

Coisas grandes


Um cafézinho
Um abraço
Um sorriso
Uma lágrima;
Dizem que a vida
É feita de coisas pequenas.
Porém não disseram o bastante:
A vida é feita apenas de coisas grandes.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Andar de cima

A vida no andar de baixo
é a que eu sempre quis.
É de lá que vêm sons
de festas,
sorrisos que posso ver
em rostos desconhecidos,
conversas robustas
cheias de neologismos.
A vida do andar debaixo
é a que eu sempre quis,
sem saber que de lá se diz:
se morasse no andar de cima
seria muito mais feliz.

-Carla Medeiros

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O erro

Onde é que erramos?
há um menino lá fora
com chuteira e bola
lhe esperando.
Já não existe o tempo,
o dia acabou
e o menino se torna aos poucos
quem ele tanto esperou.

-Carla Medeiros

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Entrelinhas


Veja bem,
não há nada para ver.
A vida está nas entrelinhas.

-Carla Medeiros

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Vai e vem

A vida é a paisagem
Que apenas se vê
Nesse vai e vem
Sem emoção,
E pàra tão rápido
Na velha estação
Que falta coragem
para descer do trem
e tudo continua
no mesmo vem e vai,
vai e vem.

-Carla Medeiros

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A negra do museu

Semana passada parei para apreciar uma exposição de trabalhos de alunos da minha faculdade. Nunca havia visto quadros tão bem feitos por alunos de Arte. Passei por cada um deles vagarosamente, tentando ler o que eles diziam, buscando além do que foi pintado pelo artista. Ao chegar no fim da exposição, lá estava ela. Uma mulher negra, com um olhar pacífico e sábio, vestindo roupas coloridas que contrastavam com sua pele escura. Ela parecia estar viva dentro do quadro. Foi uma sensação incrível. Pensei em tirar uma foto com meu celular, mas hesitei. Precisava mais que uma foto, então decidi perguntar pelo preço da obra. Quem sabe poderia levá-la para casa.
"Não tá a venda não. Essa é a mãe do artista, ela é da Nigéria, então tem valor sentimental," disse um senhor de feição engraçada. Fiquei em silêncio, queria muito comprar aquele quadro. Ele então perguntou: "Por que você gosta desse quadro? O que fez você querer comprar?" Eu poderia dizer que era o uso de cores, ou a perfeição do retrato, ou o fato dela representar uma cultura totalmente diferente da minha. Mas a resposta que me veio na hora foi: "Ela está em paz...é só ver nos olhos dela."
O senhor se identificou como membro do departamento de arte, e disse que o artista do quadro tinha que me conhecer. Ele tinha que ouvir o que eu tinha para dizer, especialmente por estar me referindo à mãe dele. O senhor me perguntou se eu pintava também. "Não, apenas escrevo, quem dera pintar um quadro assim." Ele riu e comentou: "O aluno que pintou esse quadro é poeta também. Arte é arte, não é?...Bom, eu preciso ir, mas foi bom falar com você."
Eu agradeci e fui embora pensando na conversa que acabava de ter com um estranho, mas um estranho que me entendia. Ele entendia o que eu via no quadro, ele entendia a arte. Depois de almoçar, pensei que já que não poderia comprar o quadro, pelo menos tinha que guardar uma foto dele. Quando voltei o quadro não estava mais lá, era o último dia da exposição. A Nigeriana havia partido sem dizer adeus. O momento passou, o quadro se foi, e agora tudo o que resta para que me lembre dela é uma memória e uma conversa que tive em frente de seus olhos. Mas ainda havia algo a ser feito, ou melhor, escrito:


Passei por você e vi em seus olhos
a sabedoria colhida de uma vida
tão colorida quanto sua vestimenta.
E em seu rosto
uma feição que lamenta
e ao mesmo tempo sorri
e abraça a luz do sol
e não se engana com pouca coisa.
Sua pele cansada reflete o que não diz
sua expressão pacífica;
pacífica e sábia.
E linda.
Queria ter-lhe em casa
todos os dias a me olhar da parede.
E sem dizer nada
responder minhas dúvidas
e indagações de um dia sozinho.
E me fazer companhia
com toda sua sabedoria.


-Carla Medeiros
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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Apenas amor

A velha senhora
Da fraca memória
Já se esqueceu
O que tanto esperava
No ponto de ônibus.
Era apenas amor.

-Carla Medeiros

domingo, 18 de novembro de 2012

Inexplicável


Há três amores que são inexplicáveis na vida de um homem: o amor à pátria, o amor à fé e o amor ao futebol. Um francês pode morar no Brasil, na Espanha, nos Estados Unidos ou na China, mas ele ainda vai estar, dentro dele, morando na França. Onde quer que seja sua residência, ele vai tomar café como francês, e almoçar como francês, e falar como francês, e amar como francês. Ele pode falar mal de seu país, e de como as escolas são péssimas e que o governo não dá a mínima para a população, mas se alguém levantar um dedo contra a pátria dele, o francês vai levantar todos os dedos para defendê-la. Não porque ele  muda de ideia rapidamente, ou porque ele é xenófobo, ou porque a França é o melhor lugar do mundo. Mas simplesmente porque ele é francês.
Um cristão é cristão porque ele acredita. Nada explica sua fé. Se for necessário explicar em termos humanos uma oração, a existência de Deus ou um simples costume, já não faz mais sentido. Tudo que é espiritual não pode ser explicado racionalmente. E só entende o poder de uma oração quem entende o poder de uma oração. Só se entende o que é ter fé quando se tem fé. Tudo que vai além disso, não é suficiente para explicar o porquê de todas essas coisas.
Se não é possível explicar o amor à pátria ou o amor à fé, porque seria então explicável o amor ao futebol? Uma vez Flamengo, sempre Flamengo. Salve o tricolor paulista. Salve o Corinthians. Salve o futebol. Só quem já foi a um estádio, e ficou com o coração na mão naquela cobrança de falta que no fim não deu em nada mais que um escanteio, sabe o que é o amor ao futebol. Só o torcedor que já foi campeão regional ou nacional ou internacional sabe qual é a sensação de torcer por um time. É por isso que ele olha tão feio para a namorada que diz que “é apenas um jogo, amor”. Não é apenas um jogo, do mesmo jeito que não é apenas uma oração, ou apenas um país. É o que é: uma daquelas coisas na vida que ninguém consegue explicar.

-Carla Medeiros

domingo, 11 de novembro de 2012

Incompleto


Meu sorriso é sincero.
É um meio sorriso,
Metade alegre
Metade contido.
E assim é verdadeiro,
Sem inteiros
Nem rodeios,
Imcompleto sim
Como a vida.

-Carla Medeiros

domingo, 4 de novembro de 2012

A casinha

Aquela casinha
Tão distante e sozinha
É ainda o que foi,
E me espera em uma tarde veraneia,
Com um sorriso
E uma cadeira
Para sentar na calçada
Ao fim do dia
E olhar a criançada
Com uma alegria
Que é tão cansada,
Como a velha casa
Que insiste em sorrir
Sem nem mais existir.
E os papeis se invertem assim:
A casinha agora mora em mim.

- Carla Medeiros

domingo, 28 de outubro de 2012

Quase


A vida é cheia de quases:
Quase fui,
Quase consegui,
Quase peguei,
Quase vi,
Quase amei,
Quase morri.
Há até quem diga:
Quase vivi.

-Carla Medeiros

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A tinta acabou


A caneta cansou,
a tinha acabou.
E o poema?
Passou.

-Carla Medeiros

domingo, 7 de outubro de 2012

...É humano




A lágrima é velha
mas o dia é novo.
Por isso dividem anos
em meses,
meses em semanas;
Tudo uma forma de dizer
que as dores,
também com o tempo
são invenções humanas.

- Carla Medeiros

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Apenas


Da janela do ônibus
Eu lhe vejo
Através de uma lágrima
E um sorriso.
“Adeus” eu penso,
Mas é um equívoco.
Não é adeus,
É um cumprimento apenas.
É um consentir de cabeças,
É um beijo,
Um piscar de olhos,
É um coração cheio
De vontade de ficar.
É apenas uma janela,
É apenas um ônibus.
É apenas partir.

-Carla Medeiros

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Minha canção preferida


De todas as canções,
minha preferida
é aquela que nunca
será cantada.

-Carla Medeiros

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Da lua


Ao ver a lua tão bela,
me pergunto se dela
seres lunares
também admiram a Terra.

-Carla Medeiros

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Até o sol


Não virei a esquina
Por medo de perder o sol.
Sem saber que o sol,
Até o sol,
Um dia
Se põe.

-Carla Medeiros


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Data de Nascimento


A alegria da casa,
Da mãe que caça
Um motivo para dizer
Que valeu correr,
E chegar até aqui;
Um motivo para sorrir.
Nada apaga esse sentimento.
Por isso desenham uma estrela
Em frente à data de nascimento.

-Carla Medeiros

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Cheguei bem, mãe



"Cheguei bem, mãe,"
Disse o filho
Ao passar pela vida.

-Carla Medeiros